Quanto tempo demora uma gestação? Se você não é médico, mas um homem comum, você diria nove meses. Se você for uma mulher, sem formação médica, contaria em semanas: quarenta semanas, podendo chegar a quarenta e duas. Os homens, muitas vezes, não captam a exata relação entre semanas e meses, e está tudo bem. Mas e se eu te dissesse que uma gestação pode durar oito anos? Pois bem, essa é a minha experiência com a chegada da minha segunda filha.
Após oito anos na fila de um processo de adoção, na cidade de São Bernardo do Campo, fui contatado para conhecer uma menina de três anos. Curiosamente, o nome dela é muito parecido com o da minha primeira filha, e, por uma questão de sigilo, não revelarei o nome agora. Enquanto escrevo, estou em um delicado processo de aproximação com ela, criando um vínculo, passo a passo.
Essa menina, assim como minha primeira filha, faz aniversário no mês de março. Minha filha nasceu no dia 1, e ela no dia 3. Essa experiência me fez refletir profundamente: o processo de ter filhos não se limita a uma ação biológica. Quando olhamos para Gênesis, vemos Deus criando o homem e a mulher, pedindo que sejam fecundos e se multipliquem. Mas, além do aspecto biológico, há uma complexidade teológica: a adoção nos lembra que ser família vai além do sangue. É um chamado divino para agregar, amar e viver o Evangelho na prática.
A adoção, assim, é uma gestação de fé. É um processo lento, mas repleto de significado. Deus nos chama a sermos pais e mães não apenas biológicos, mas espirituais, acolhendo aqueles que, por alguma razão, precisam de um lar. E, assim como o amor de Deus por nós, o amor de pais adotivos reflete o amor incondicional que nos foi ofertado.
A Escritura nos ensina que não apenas fomos criados por Deus, fomos adotados por Ele. O apóstolo Paulo declara em Efésios 1:5 que Deus “nos predestinou para Ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo”. Não se trata de uma metáfora romântica; trata-se de uma realidade jurídica e espiritual. Éramos estrangeiros, separados, filhos da ira, mas fomos recebidos como filhos amados. Em Romanos 8:15, Paulo afirma que recebemos “o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai”.
A adoção divina não foi um plano emergencial. Foi um ato intencional de amor. Deus não nos adotou porque precisava aumentar Sua família. Ele nos adotou para manifestar Sua graça, para revelar Sua glória e para nos inserir em Sua missão redentora.
Quando compreendemos isso, a adoção deixa de ser apenas uma alternativa à infertilidade ou um projeto filantrópico. Ela se torna uma parábola viva do Evangelho.
Ao adotar uma criança, não estamos apenas ampliando nossa família física. Estamos proclamando, com gestos concretos, que o Evangelho é real. Estamos dizendo que pertencimento não nasce apenas do sangue, mas da graça. Estamos encarnando, dentro de casa, aquilo que Deus fez conosco em Cristo. Isso muda completamente a motivação.
Se adotamos apenas para “ter mais um filho”, podemos até cumprir um desejo legítimo. Mas se adotamos como resposta ao fato de que fomos adotados por Deus, então nosso lar se torna um pequeno reflexo da história da redenção.
A ordem de “crescei e multiplicai-vos”, em Gênesis 1:28, possui, de fato, um aspecto biológico. Mas à luz da revelação completa das Escrituras, percebemos que Deus sempre esteve formando uma família da fé. A promessa feita a Abraão não era apenas sobre descendência biológica, mas sobre uma descendência espiritual que alcançaria todas as nações.
Por isso, quando Jesus ordena que façamos discípulos de todas as nações e que preguemos o Evangelho a toda criatura, Ele está ampliando o conceito de multiplicação. A família de Deus cresce pela proclamação do Evangelho. A adoção, então, se conecta diretamente com essa missão.
Não adotamos para substituir um filho. Não adotamos para preencher um vazio. Não adotamos para construir uma narrativa bonita. Adotamos quando Deus assim nos chama para sermos instrumentos de redenção no cotidiano, para que uma criança que talvez conheceu abandono conheça pertencimento, e para que alguém que experimentou rejeição experimente o amor pactual.
E isso começa dentro de casa, mas não termina nela. Cada refeição compartilhada, cada história bíblica contada antes de dormir, cada oração feita ao lado da cama, cada correção amorosa, cada abraço, tudo isso é discipulado. Tudo isso faz parte da missão e da expansão da família da fé.
O vínculo está sendo tecido com cuidado. Há expectativas, há temores, há orações silenciosas. Mas há também uma convicção profunda: antes que eu a escolhesse, Deus já havia nos escolhido. Antes que eu a acolhesse, Deus já havia nos acolhido.
Se fomos adotados por Deus, não podemos olhar para a adoção apenas como uma possibilidade social. Precisamos enxergá-la como uma expressão teológica.
Talvez nem todos sejam chamados a adotar formalmente. Mas todos os crentes são chamados a refletir o coração adotivo de Deus: acolhendo, discipulando, proclamando, integrando pessoas à família da fé.
Porque, no fim das contas, a maior gestação da história não durou nove meses. Ela atravessou séculos, culminou na cruz e resultou numa família incontável e é um privilégio indescritível participar, ainda que de forma pequena e doméstica, dessa história eterna.
